21 de julho de 2018

Lição 04


A FUNÇÃO SOCIAL DOS SACERDOTES
Texto áureo: Lc. 5.14  – Leitura Bíblica: Lv. 13.1-8

INTRODUÇÃO
Na lição de hoje, com base no livro de Levíticos, iremos destacar a função social dos sacerdotes. Mostraremos também que a atuação social desses aponta para o serviço de Cristo, que se envolveu em questões sociais, e inspirou a Igreja a fazer o mesmo. Concluiremos a aula mostrando que a Igreja Primitiva, ainda no primeiro século, preocupava-se com os problemas sociais, sobretudo no contexto da própria igreja.

1. A FUNÇÃO SOCIAL DOS SACERDOTES
Os sacerdotes tinham várias funções sociais, uma delas era a de inspecionar clinicamente o povo. A lepra era uma das doenças mais temidas pelo povo, principalmente por causa do contágio (Lv. 13.2; Dt. 7.14). Era competência do sacerdote inspecionar, e quando a doença fosse identificada, deveria separa o enfermo da comunidade, para evitar o contágio. O sacerdote também tinha função sanitarista, seria uma espécie de especialista em saúde pública, por isso deveria inspecionar as casas e roupas de Israel (Lv. 14.34-57). O objetivo seria evitar qualquer tipo de contaminação, principalmente em relação à lepra, considerando que essa doença resultaria em outros tipos de moléstias (Dt. 24.8). O sacerdote também tratava das questões jurídicas, em relação à proteção da família, proibindo o sacrifício infantil (Lv. 20.2), as relações incestuosas (Lv. 18.6-9), o abuso sexual doméstico (Lv. 18.10), a exposição das filhas à prostituição (Lv. 19.29), a homossexualidade e práticas semelhantes (Lv. 18.22,23). Além disso, deveriam zelar pelo direito da propriedade privada, mas sem esquecer do cuidado com os pobres (Lv. 23.22), bem como com a preservação do meio ambiente (Lv. 25.3,4). Outra função social do sacerdote era de proteger a vida, para tanto deveria inspecionar a edificação das casas (Dt. 22.8), a criação de animais (Ex. 21.36), a preservação da mulher grávida e do filho no ventre (Ex. 21.22). Essas atribuições são compreensíveis no contexto da sociedade teocrática israelita, mas não se aplicam mais à igreja, devemos saber que há instituições públicas, que tratam dessas especificidades.

2. A FUNÇÃO SOCIAL NO MINISTÉRIO DE JESUS
No Evangelho segundo Lucas, Jesus é Aquele que tem poder sobre as doenças e a morte. Há passagens em sua narrativa que explicam o poder do Senhor sobre a doença e a morte. Em Lc. 4.38,  Jesus curou a sogra de Simão, que estava enferma com muita febre, de modo que essa pode começar a servi-LO. Indo a cidade chamada Naim, Jesus encontrou uma mãe angustiada, com a morte de seu único filho, sendo esta também viúva. Jesus, movido de íntima compaixão, a consolou, em seguida tocou o esquife, e ressuscitou o seu filho (Lc. 7.11-13). Em Lc. 8 lemos a respeito de Jairo, um oficial da sinagoga, que sofria com a doença e possibilidade de morte da sua filha, de apenas doze anos (Lc. 8.40). Mesmo sendo uma autoridade, Jairo se humilhou aos pés de Jesus, implorando para que Ele resolvesse sua situação (Lc. 8.40-42). Ao mesmo tempo, uma mulher que estava próxima de Jesus, tinha uma doença, que causava sangramento, e que duravam doze anos (Lc. 8.43). A situação dessa mulher era de desespero, ela já havia gastado muito dinheiro com os médicos, nenhum deles havia conseguido curá-la (Mc. 5.26; Lc. 8.43). Aquela enfermidade a tornava impura, por causa do cerimonial de purificação judaico. Mesmo assim, ela decidiu tocar em Jesus, e encontrou cura nEle. Jairo também recebeu a providência divina diante da doença da sua filha, ainda que o pensamento humanista da época, dizia que o Mestre não deveria ser incomodado, pois a menina já estava morta (Lc. 8.49,50). Mas Jesus, que tem poder sobre as doenças e a morte, ressuscitou a menina (Lc. 8.51-53). Jesus não curou a todos que se aproximaram dEle, mas os tratou com dignidade, não apenas aos doentes, mas aos pobres e marginalizados. A forma como Jesus tratou as pessoas socialmente vulneráveis deve motivar os cristãos a fazerem o mesmo.

3. A FUNÇÃO SOCIAL DA IGREJA
Há um profeta no Antigo Testamento que denunciou a injustiça social, se opondo aos pecados de opressão (Am. 5.12,13). De igual modo, Tiago chama a atenção daqueles que acumulam riquezas como um fim em si mesmo. Evidentemente isso nada tem a ver com o cuidado previdente, associado à manutenção da família (II Co. 12.14; I Tm. 5.8; Mt. 25.27). Mas devemos ser cautelosos para não confiarmos nas riquezas, o cristão não pode colocar seu coração no dinheiro. Jesus censurou o rico insensato que pensou ser o dono da própria vida (Lc. 12.15-21). A vida é passageira, e as riquezas não podem garantir vida eterna (I Tm. 6.17). Tiago lembra que as riquezas são passageiras (Tg. 5.2,3), com Paulo assume que nada trouxemos para esse mundo, e que dele nada levaremos (I Tm. 6.7). Portanto, devemos investir na piedade com contentamento (I Tm. 6.6). Há pessoas que estão sendo devoradas pelas próprias riquezas, a paixão pelos bens do presente século está correndo as suas almas (Tg. 5.3). Patrões, sejam eles evangélicos ou não, prestarão contas a Deus quanto à maneira que trataram seus empregados. Os empregadores cristãos têm a responsabilidade de tratar com justiça seus empregados. Eles não podem abusar financeiramente dos seus trabalhadores, atentando para as normas trabalhistas do nosso país. Ao invés de exercitar a ganância, somos orientados pela Palavra a viver com generosidade (II Co. 6.10). E mais que isso, devemos também trabalhar para modificar as estruturas sociais arraigadas neste país. Não podemos acatar com naturalidade práticas que são consideradas normais. Existem pessoas que não fizeram opção pela pobreza, elas se encontram em tal condição por causa da injustiça social. Os cristãos devem dar o exemplo, não apenas “dando o peixe”, mas também “ensinando a pescar”. E quando necessário, denunciar atitudes que cerceie o direito dos pobres e necessitados.

CONCLUSÃO
Os sacerdotes exerceram sua função social no Antigo Testamento, no contexto da Aliança com Israel. Nós os cristãos da Novo Testamento devemos imitar o modelo de Cristo, que se aproximou de todos, inclusive daqueles que foram acometidos de lepra. A identificação de Jesus com os mais vulneráveis inspirou a igreja primitiva, para que também se preocupasse com os necessitados. As igrejas evangélicas precisam investir mais em obras sociais e atentar mais para os marginalizados, especialmente entre os domésticos na fé (Gl. 6.10).

BIBLIOGRAFIA
TIDBALL, D. The message of Leviticus. Leicester: Interversity-Press, 2005.
WIERSBE, W. Be holy: Leviticus. Colorado Springs: David Cook, 2010. 

14 de julho de 2018

Lição 03


OS MINISTROS DO CULTO LEVÍTICO
Texto áureo: Nm. 3.45 – Leitura Bíblica: Lv. 8.1-13

INTRODUÇÃO
Na lição de hoje, estudaremos a respeito do ministério sacerdotal levítico, ressaltaremos seu chamado para o serviço. Ao mesmo tempo, não poderemos deixar de destacar que o sacerdócio levítico era uma sombra do sacerdócio eterno de Cristo. E ao final, mostraremos que Jesus quando ressuscitou deu dons aos homens, favorecendo o ministério cristão, tanto em sentido amplo quanto específico, com vistas à edificação do corpo de Cristo.

1. OS MINISTROS DO CULTO LEVÍTICO
O culto israelita era ministrado pelos sacerdotes levitas, esses eram responsáveis por estar diante do Senhor, intermediando pelo povo. Levi foi um dos filhos de Lia, uma das esposas de Jacó, e seu próprio nome ter a ver com “estar ligado”. Por isso, se reconhece que essa era a tarefa dos levitas, deveriam estar sempre “ligado no Senhor”, zelando pelo serviço divino. Por ocasião da divisão das terras entre as tribos de Israel, aos levíticas não coube território, eles deveriam depender da providência divina, por isso Arão e seus descendentes deveriam ser separados para um trabalho específico (Ex. 6.14-27; Nm. 3.45). Por esse motivo, o sumo sacerdote de Israel deveria ser descendente de Arão (Ex. 6.15-23), constituído como mediador entre os homens e Deus (Lv. 10.10,11), assumindo essa função de forma vitalícia (20.23-28), não se esquecendo que eram servos de Deus, não dos homens (Ex. 28.43). Por esse motivo, deveriam viver do altar, dedicando-se exclusivamente ao ministério (Lv. 7.35), e viverem de maneira santificada, a fim de agradar ao Senhor que os chamou para cumprir uma missão (Ex. 28.36), caso profanasse o ofício do Senhor, seriam punidos severamente (Lv. 10.1-3). Esperava-se que os sacerdotes levíticos fossem um exemplo de espiritualidade para o povo, tendo em vista que deveria zelar pela Lei do Senhor, e serem puros aos olhos de Deus, ainda que não fossem perfeitos. Vários sacerdotes tiveram problemas, inclusive para que seus descendentes dessem sequência ao trabalho para o qual foram comissionados. Os filhos de Eli é um exemplo de sacerdotes que não levaram a sério o serviço divino, como consequência disso foram punidos com rigor (I Sm. 2.25).

2. O MINISTÉRIO ETERNO DE JESUS
O autor da Epístola aos Hebreus apresenta algumas especificidades em relação ao sacerdócio de Cristo, em comparação com o sacerdócio levítico. Para que o sacerdócio levítico fosse aprovado por Deus, bem como o próprio sacerdócio de Cristo, fazia-se necessário que algumas qualificações fossem consideradas. A esse respeito, é preciso destacar que a “ordem” do sacerdócio de Cristo se difere daquele dos sacerdotes levíticos. Em ambos os casos, um homem foi escolhido, para representar o povo, na presença de Deus. Por isso, como sacerdote, Jesus foi “tomado dentre os homens” (Hb. 5.1). E seguindo a prática sacerdotal judaica, “para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb. 5.1). Como Sumo Sacerdote, Jesus “pode compadecer-se”, isso mostra que Ele não desconsidera nossa condição humana, e mais que isso, que ele tem simpatia, no sentido etimológico do termo”, sofre conosco. Ele conhece nossa natureza, e sabe que somos pó, e que dependemos de Deus, inclusive para vencer as tentações/provações. Uma das qualificações de Cristo, em comparação ao sacerdócio levítico, é que o sacerdote levítico deveria oferecer sacrifícios “tanto pelo povo como também por si mesmo” (Hb. 5.3). Por oposição, o sacerdócio de Cristo tinha procedência divina, para tanto o autor recorre a Sl. 2.7 e ao 110.4, a fim de mostrar que Jesus, diferentemente do sacerdócio aaronico, seguia a ordem de Melquisedeque. Este foi um sacerdote-rei da cidade estado de Salém – antiga Jerusalém – nos tempos em que Abraão resgatou Ló do cativeiro. E seguindo essa ordem, Jesus mostrou ser superior, pois Ele não apenas morreu pelos pecados da humanidade, também ressuscitou vindo a ser “a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb. 5.9). A obediência é importante no contexto da Epístola aos Hebreus, pois o próprio Cristo “aprendeu a obediência”, e todos aqueles que O seguem também devem aprendê-la.

3. O MINISTÉRIO E OS DONS CRISTÃOS
Na Nova Aliança fomos feitos sacerdotes (I Pe. 2.9), de modo que não dependemos mais de um sacerdote humano. Temos Jesus Cristo que é o Supremo Sacerdote (Hb. 7.13-17). Mesmo assim, sabemos que Jesus deu dons aos homens, e ministros para a edificação da Sua igreja. Ele é o doador, que concede, aos homens, para o serviço cristão no Corpo de Cristo. Esses dons, descritos em Ef. 4.11-12, são funcionais, ou melhor, têm serventia para cumprir um proposito, mais especificamente a edificação da igreja (Ef. 4.12-16). Há também o equívoco de pensar que os dons espirituais são dispensados por méritos pessoais. Ninguém é usado por Deus, através dos dons espirituais ou ministeriais, por que é digno (Rm. 12.6; I Pe. 4.10), não podemos esquecer que fomos salvos pela graça de Deus (Ef. 4.9,10). Os dons procedem de Deus, Ele é a fonte dos dons, tanto os espirituais (charismata/penumatikon) quanto os ministeriais (diakonia). A distribuição dos dons é um trabalho da Trindade, o Pai enviou Cristo, e depois o Espírito Santo (Jo. 14.6; 20.21). A concessão dos dons espirituais e ministeriais vem de Deus, sendo que existem os dons do Espírito (I Co. 12.4-7), e os dons de Cristo (Ef.4.11). É importante destacar que há mais de nove dons espirituais, não apenas aqueles listados por Paulo em I Co. 12.8-11. Em Rm. 12.3-8 encontramos uma lista, diferente da de I Co., no tocante aos dons: profecia, ministério, ministração, ensino, exortação, partilha, presidência e misericórdia. Esses dons, de acordo com o texto, são todos provenientes de Deus. Os dons, grosso modo, partem de Deus para a igreja, a fim de constituir uma unidade na diversidade (Rm. 12.5). A dispensação dos dons, tanto os espirituais quanto ministeriais, é de Deus, mas há também participação humana. No texto de Rm. 12.3-8, Paulo instrui os crentes a desenvolverem os dons. Diferentemente dos dons de I Co. 12.8-11, que têm caráter mais instantâneo, e aspecto notadamente sobrenatural.

CONCLUSÃO
Os dons espirituais e ministeriais foram destinados aos homens e mulheres da igreja, com vistas ao serviço (diakonia), e mais especificamente, à edificação do Corpo de Cristo. Os dons espirituais e ministeriais não devem ser ignorados, é necessário que os membros da igreja se interessem por eles, mas é preciso usá-los com equilíbrio (I Co. 12.1). Os homens e mulheres de Deus, quando usados pelo Espírito, através dos dons, devem exercitá-los com responsabilidade, sobretudo com zelo e amor (I Pe. 5.2,3).

BIBLIOGRAFIA
TIDBALL, D. The message of Leviticus. Leicester: Interversity-Press, 2005.
WIERSBE, W. Be holy: Leviticus. Colorado Springs: David Cook, 2010.

7 de julho de 2018

Lição 02


A BELEZA E A GLÓRIA DO CULTO LEVÍTICO
Texto áureo: Lv. 9.23 – Leitura Bíblica: Lv. 9.15-24

INTRODUÇÃO
Os levitas foram separados por Deus para o serviço ao Senhor, manifestado através do culto, e dos seus rituais. Na lição de hoje estudaremos a respeito da beleza e glória desse culto, ressaltando seu simbolismo em relação ao culto cristão. Ao longo da aula, é importante destacar que a beleza e a glória do culto cristão não se comparam com a glória revelada em Cristo Jesus, pois nEle habita a plenitude da divindade, e nEle o Pai manifestou a Sua glória.

1. O CULTO NA ANTIGA ALIANÇA
O culto divino foi realizado antes mesmo da Antiga Aliança, dada a Deus por Moisés. Os patriarcas adoraram a Deus, com destaque para o sacrifício de Abel, que foi recebido pelo Senhor, em detrimento do sacrifício de Caim, rejeitado por Deus (Gn. 4.3-7). Depois de Abel, outros construírem altares, como símbolo de culto e adoração ao Senhor, dentre eles, Noé e Abraão (Gn. 8.20;12.7; 26.5). No período mosaico, o povo de Israel recebeu instruções expressas a respeito de como deveria ser o culto levítico (Ex. 12.21-26). A adoração ao Deus que havia retirado o povo do Egito fazia parte da aliança estabelecida entre YHWH e Israel. Por sua vez, o culto não poderia ser realizado de qualquer maneira, antes deveria seguir os procedimentos determinados pelo Senhor. Inicialmente, esse culto era prestado no Tabernáculo, a estrutura móvel construída por Moisés, e posteriormente, no governo de Salomão, um templo foi edificado para esse fim (I Cr. 23.5; II Cr. 7.6). Salomão ofereceu a Deus aquele templo, destacando que a glória não estava naquela edificação, mas no próprio Senhor que ali estaria presente. Depois de Salomão vários reis governaram tanto em Israel quanto em Judá, alguns deles consolidaram e fortaleceram o culto, no contexto da monarquia teocrática. Mas a maioria deles preferiu seguir seus próprios caminhos, por isso Deus levantou seus profetas, a fim de reestabelecer o culto, em conformidade com a Palavra de Deus. Após o cativeiro babilônico, quando os judeus retornaram para sua terra, Esdras e Neemias revitalizaram o culto ao Senhor, através da exposição da Torah (Ne. 12.22-30).

2. O CULTO NA NOVA ALIANÇA
Na Nova Aliança, o culto a Deus é realizado por meio de Jesus Cristo, que é o próprio fundamento do culto. O autor da Epístola aos Hebreus, ao longo de sua exposição apologética, destaca que a glória do culto da Antiga Aliança feneceu, diante da glória do sacerdócio eterno de Cristo, sendo esse superior ao levítico (Hb. 7.17-24). Por esse motivo, não temos mais razões para imitar o culto levítico, ou como queriam fazer os cristãos hebreus do primeiro século, e retornarem as práticas litúrgicas da Antiga Aliança. Atualmente existem igrejas evangélicas que estão adorado ao culto judaico, algumas estão substituindo os elementos do culto cristão por utensílios e práticas judaicas. Esse caso se torna ainda mais grave quando o culto se torna judaizante, semelhante aquele que estava sendo inserido entre os gálatas, contra o qual Paulo se posicionou em sua Epístola (Gl. 1.8,9). É preciso ter cuidado para não inserir elementos judaico no culto cristão, pois mesmo reconhecendo que a fé vem dos judeus, não podemos aculturar nossa adoração, substituindo a liturgia da Nova Aliança pelos rudimentos da Antiga. É bem verdade que existem elementos semelhantes nos cultos Judaico e Cristão, dentre eles destacamos: os cânticos, a exposição da Palavra, a oração, a leitura bíblica e a benção final. O culto cristão deve ter esses elementos, com as devidas especificidades, sem esquecer que se trata de um culto espiritual, fundamentado na verdade divina (Jo. 4.23,24). Como nos tempos da Antiga Aliança, corremos o risco de perder a essência do culto, ao transferir glória para os elementos materiais, ao invés de compreender sua natureza espiritual, deixando de atentar para seu simbolismo, e em alguns casos, adorando os próprios objetos, ao invés da realidade para os quais apontam.

3. O CULTO CRISTÃO NOS PRIMÓRDIOS
O culto cristão, ainda nos primórdios da Igreja, tinha suas bases divinas. Em At. 2.42-47, compreendemos que o culto estava fundamentado na koinonia, e se alicerçava na doutrina dos apóstolos, no partir do pão e nas orações. A partilha, que também era manifestada na celebração da Ceia do Senhor (I Co. 11.20-22), é uma demonstração do espírito comunitária da igreja do primeiro século. Os cultos eram realizados tantos nas casas como no templo (At. 2.46; 5.42; 20.7), era importante que os cristãos estivessem unidos, e não deixassem de se congregar (Hb. 10.24,25). Não podemos desconsiderar o aspecto comunitária do culto cristão, é por meio deles que ressaltamos nossa unidade, e reforçamos nossa dependência mutua. É nesse espírito comunitário que podemos ler a pregar a Palavra de Deus (Cl. 3.16; II Tm. 4.2), explicando e aplicando as verdades da fé; também nos dirigimos a Deus em oração (Ef. 5.20; I Tm. 2.8; At. 2.42), pois a oração é uma demonstração de dependência divina, também podemos interceder pelos irmãos e agradecer pelas dádivas do Senhor. Há espaço para hinos e cânticos espirituais (Cl. 3.16; Hb. 13.15), mas esses devem glorificar a Deus, e não aos homens, devem servir para expressar nossa relação com Deus, e contribuir para a proclamação do evangelho (Ef. 5.19). Um dos aspectos mais importantes do culto cristão é a consagração a Deus, por isso devemos oferecer nossos corpos como sacrifício vivo ao Senhor, sendo esse o nosso culto racional, por meio do qual experimentamos a agradável, boa e perfeita vontade de Deus (Rm. 12.1,2).

CONCLUSÃO
O culto levítico teve sua beleza e glória, que ainda resplandecem, mas não podem ser imitados pelos cristãos, a menos que seus elementos expressem a glória do culto cristão, cuja expressão maior é Cristo, o ápice da revelação divina (Jo. 1.1; Hb. 1.1,2). Por causa dEle, podemos nos achegar com ousadia ao trono do Pai, e adorá-lo na beleza da Sua santidade, tributando a Ele a glória e o louvor que lhe é devido: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; pois tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Ap. 4.11).

BIBLIOGRAFIA
TIDBALL, D. The message of Leviticus. Leicester: Interversity-Press, 2005.
WIERSBE, W. Be holy: Leviticus. Colorado Springs: David Cook, 2010.

29 de junho de 2018

Lição 01


LEVÍTICO, ADORAÇÃO E SERVIÇO AO SENHOR
Texto áureo: Lv. 26.11 – Leitura Bíblica: Lv. 27.28-34

INTRODUÇÃO
Neste trimestre estudaremos o livro de Levítico, um dos compêndios do Pentateuco. Esse é um manual de adoração para o povo judeu, e que oportuniza aplicações para o culto cristão. Nesta primeira aula o contextualizaremos, destacando o gênero literário, a data e autoria. É importante, nesses estudos, que não fiquemos apenas na descrição da religiosidade judaica, mas que também atentemos para sua dimensão espiritual, e possibilidades práticas para a adoração cristã, desde que estejam fundamentadas no evangelho.

1. AUTORIA, DATAÇÃO E GÊNERO
O livro de Levítico, bem como os demais livros do Pentateuco é atribuído a Moisés, cuja autoria é reconhecida pelo próprio Jesus (Mt. 5.17). A maioria dos estudiosos concorda que o material da Torah foi escrito por volta de 1445 a. C., no período em que Moisés levantou o tabernáculo no deserto. Alguns teólogos liberais modernos, fundamentados na crítica literária, tentaram questionar a autoria mosaica, mas essa tem sido cada vez mais consolidada, tanto pelas evidências externas quanto internas da obra. Entre os gêneros bíblicos, essa obra pode ser categorizada como um manual do culto divino, ou uma espécie de  estatuto para a purificação religiosa nacional, considerando que o povo de Israel vivia debaixo de uma aliança, sendo uma nação governada por Deus. Quanto ao propósito de Levítico, podemos ressaltar que se trata de uma orientação para os sacerdotes no seu ofício, em conformidade com a aliança de Deus e Israel. É importante ressaltar que o santuário havia sido construído, por isso Deus apresenta os fundamentos da adoração judaica. Essa é uma demonstração de que Deus não pode ser adorado de qualquer jeito, mas em conformidade com suas especificações. No contexto da aliança israelita, o próprio YHWH apresenta os termos pelos quais deveria ser adorado. Ao assim fazê-lo, o povo hebreu seria preservado, e ao obedecer às leis do Senhor, não seria contaminado pelas práticas pecaminosas das nações vizinhas. À luz do evangelho, sabemos que Deus tabernaculou no meio dos homens, pois o Verbo se fez carne e habitou no meio de nós (Jo. 1.1,14). Por esse motivo, podemos ter a certeza de que fazemos parte de uma nova aliança, consagrada por Cristo no calvário. Nessa nova aliança, fomos feitos sacerdotes com Aquele que é o Sumo-Sacerdote Eterno (Hb. 7.17).

2. A ESPECIFICIDADE DE LEVÍTICO
Levítico é o terceiro livro dos cinco livros da Torah, a palavra inicial do livro é wayyiqra, expressão hebraica que significa “e Ele chamou”, se referindo aos sacerdotes, que foram chamados pelo Senhor. A versão grega do Antigo Testamento – Septuaginta – optou por denominá-lo de leutikon, cuja tradução é “a respeito dos levitas”. A versão latina da Bíblia – Vulgata – traduziu com o título de Leviticus, do qual derivou o nome dado na língua portuguesa. Esse é um Manual de Regulamentos e Procedimentos Sacerdotais, de modo que identificamos a predominância de considerações rituais e legais. É preciso considerar também que há uma relação imediata do livro de Êxodo com o de Levítico, por isso o próprio título em hebraico trazer uma vav conjuntivo, uma espécie de conjunção aditiva. Isso mostra que o ofício sacerdotal deveria ser realizado dentro do contexto da religiosidade hebraica. A função sacerdotal, por conseguinte, tinha a ver com a instrução do povo na Torah, servindo como manual de orientação para o serviço, e adoração no tabernáculo do Senhor. Em linhas gerais, deve ser considerado um Código de Santidade, destacando a importância do sacrifício, a fim de que os sacerdotes recém-consagrados soubessem se portar no santuário, e conduzindo-se de maneira a agradar ao Senhor, pautando o modo de viver do povo, para que não esquecessem que era uma nação separada por Deus. A esse respeito, o livro de Levítico encontra eco no Novo Testamento, na medida em que destacamos que somos uma nação santa, um povo separado por Deus, chamado das trevas para sua maravilhosa luz (I Pe. 2.9). A igreja do Senhor Jesus é “os chamados para fora” – ekklesia – por isso deve viver em adoração, não mais em meros rituais religiosos, mas em espírito e verdade (Jo. 4.22-24).

3. A TEOLOGIA DE LEVÍTICO
A teologia fundamental de Levítico é a da “santidade ao Senhor”, e “sede santos porque eu sou santo” (Lv. 10.13), pois o Deus que retirou o povo de Israel do Egito é Santo (Lv. 11.44). Ele não é uma mera divindade nacional, mas o Único Deus Verdadeiro, que resgatou o povo da servidão. Desse modo, se a nação permanecesse debaixo dessa aliança, teria a certeza de que esse mesmo Deus o guardaria, e o preservaria dos seus inimigos. Outro enfoque que merece destaque no livro é o da adoração, podemos afirmar que o Deus de Israel é digno de ser adorado, e que esse apresenta as especificações rituais, para que a adoração aconteça. Os sacrifícios se faziam necessários por causa da condição pecaminosa do ser humano, e ao mesmo tempo, ressalta a gravidade do pecado, diante da santidade de Deus. Algumas dessas temáticas são reafirmadas no Novo Testamento, principalmente a de que nenhum ser humano é capaz de salvar a si mesmo (Rm. 3.23; Ef. 2.8,9), e que o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo (Rm. 6.23). Na verdade, alguns temas que se encontram em Levítico foram reafirmados por Jesus, dentre eles, o do supremo mandamento do amor, primeiramente a Deus, e ao próximo como a nós mesmos (Lv. 19.18; Mt. 22.39). Paulo também fez referência a essa “regra áurea” em Rm. 13.9 e Gl. 5.14, de modo que, nesse contexto, os crentes são sacerdotes consagrados ao serviço do Senhor. O sacerdócio dos crentes, diferentemente daquele levítico, é dura para sempre e em todos os lugares A santidade, por sua vez, não está atrelada apenas a rituais externos, mas a um estilo de vida, tendo o próprio Deus como padrão (I Pe. 1.15). Nessa nova condição, nos tornamos habitação de Deus pelo Espírito Santo, que também opera em nós a santificação (Gl. 2.11).

CONCLUSÃO
Na condição de crentes santos e santificados por Cristo, temos diante de nós a responsabilidade de viver em santidade, agradando ao Deus Vivo e Verdadeiro (I Ts. 4.1-12). E para isso, devemos reconhecer que temos uma nova mentalidade, somos templo e morada do Espírito Santo (I Co. 6.19), e como tal, não podemos mais nos conformar a esse mundo, antes vivermos de acordo com a vontade boa, perfeita e agradável de Deus, que é nosso culto racional (Rm. 12.1,2).

BIBLIOGRAFIA
HARRISON, R. K. Levítico: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2011.
TIDBALL, D. The message of Leviticus. Leicester: Interversity-Press, 2005.